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A 3ª face

Seg | 05.08.19

A Calçada dos Cinquenta (desafio dos 50 anos)

 

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Lembro-me desta calçada desde sempre. A subida é íngreme mas, quando se é novo, tem-se energia para tudo. 

Percorro-a desde que me recordo. Costumava subi-la rapidamente, talvez com asas nos pés a empurrarem-me para cima, onde pairam os sonhos de quem é jovem.

Muitas vezes, nem reparei nas casas por onde passei. Ignorei os vasos nas janelas e o perfumes das flores coloridas. Mas tinha pressa.

Primeiro, tinha pressa de que as pernas me crescessem e me levassem para onde me apetecesse.

Depois, era urgente terminar a escola, a faculdade, o mestrado, os objectivos do trabalho, ganhar dinheiro para o carro, para uma casa maior, para as férias de verão... 

 

Mas aos poucos, o passo foi abrandando. Talvez canse subir uma calçada tão íngreme.

Ou talvez, numa destas esquinas onde já paro para sorver a brisa, tenha reparado que os meus filhos cresceram e arranjaram as suas próprias calçadas para subir.

O que é certo é que caminho cada vez mais devagar. 

Daqui por um ano, já terei chegado ao topo da Calçada dos Cinquenta.

Imagino que a vista será boa. Olharei para baixo e recordarei alguns percursos. Os fáceis e sobretudo, os que me obrigaram a um esforço acrescido para continuar. Desses ninguém esquece, pois não?

 

Dizem que no cimo dessa calçada há um grande espelho. 

Talvez me vá mirar.

Talvez perceba as rugas (ainda poucas) que vão tornando o meu rosto parecido com o da minha mãe.

Talvez descubra mais alguns cabelos brancos, que eles vão tardando a aparecer.

Talvez assuma que a minha cintura se tornou mais larga para sempre e que a roupa pendurada no roupeiro não me voltará a servir.

 

Mas uma calçada é apenas uma calçada e a vida não pára.

Aos 50, percebemos que é tempo de voltar a descer.

Fazer o mesmo caminho de regresso mas, desta vez, mais lentamente.

Porque agora, conhecemos as pedras soltas da rua e saberemos evitá-las.

E conseguiremos identificar quais as janelas floridas que valerão a pena apreciar.

E as sombras das árvores, onde poderemos descansar.

 

Descer não tem de ser mau.

Porque, sem darmos por isso, construímos um corrimão a que nos poderemos sempre apoiar, a que vulgarmente chamamos Sabedoria.

 

Assim a saúde não nos abandone!

 

Embora me falte quase um ano, resolvi participar no desafio "50 anos", lançado pela imsilva "  .

Afinal estou quase, quase lá! 

Obrigada por esta ideia, amiga!

 

 

 

 

 

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