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A 3ª face

Dom | 27.08.17

A minha (muito provável) entrevista a Júlio Dinis sobre as Eleições Autárquicas 2017

júlio dinis - a morgadinha dos canaviais.jpg

 

Pasmada (novamente) pelas manifestações de interesse súbito no bem-estar do povo, nas romarias de bandeirolas e folhetos coloridos por tantos bairros e vielas e pela omnipresença das figuras importantes da minha pequena terreola em todas as festas e celebrações, quis esclarecer-me com um sábio nestas matérias e decidi entrevistar Joaquim Guilherme Gomes Coelho (conhecido na literatura por Júlio Dinis).

 

3ª face - Boa noite, Sr. Júlio Dinis. Explique-me, para começar, que mistério faz com que a vida calma desta terra desperte agora tanto interesse pelas necessidades do povo, tanta simpatia pelas ruas onde passam grupos de bandeirola na mão, tantos abraços e beijinhos? Mas que, ao mesmo tempo, faz com que se zanguem famílias, se cuspam pecados na praça pública e se propaguem calúnias e difamações?

Júlio Dinis – “A política! Sim, é isso! Eu devia prever que essa palavra viria para explicar este mistério! Por política é-se cruel, por política sacrifica-se um amigo, por política força-se a consciência, e depois ela justifica tudo. Que obras são as obras políticas que precisam da sombra e do mistério para se fazerem? Pois, para dirigir ou salvar uma nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre necessário o disfarce, a dissimulação, o mistério?“

 

3ª face - E como pode um candidato conseguir votos mesmo entre os descontentes, os que se atreveram a discordar das estratégias e das decisões de governação do mandato anterior?

 Júlio Dinis – “ O que lá vai, lá vai. (…)  O que era bom era ver até se se falava ao Herodes, porque talvez ele possa agora ainda arranjar alguns votos — acrescentou o Tapadas, disposto a servir-se da dor de um pai como arma eleitoral. E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas políticos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potências eleitorais do círculo. Estudaram-se as ambições de cada uma; ponderaram-se as exigências feitas por uns, os desejos adivinhados em outros; para este o emprego de um afilhado, àquele o bom êxito de uma demanda, a outro o pagamento de uma dívida, ou o resgate de uma hipoteca e a alguns até nua e descaradamente o dinheiro. Nesta empresa de subornar consciências e sofismar a urna entreteve-se o conciliábulo, sem que nenhum dos membros dele sentisse remorsos por o que estava fazendo ali.

 

3ª face - Na sua opinião, quem vai ser o candidato perdedor?

— “Quando se não pode contar com a boa-fé dos outros, perde sempre quem for escrupulosamente fiel à sua.”

 

3ª face - Acha que Portugal ainda vive uma política de campanário, do tempo em que escreveu a Morgadinha dos Canaviais?

Júlio Dinis – “A vida política tem isso consigo. Quanto mais estreito, mais apertado é o círculo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e conhecidos são os que vivem dela, tanto mais acanhada, mexeriqueira e antipática se torna. Se a política do nosso país é já pequena como ele, se degenera em desavença de senhoras vizinhas, que fará nas terras pequenas deste país, em que muito acima dos princípios e dos partidos estão os mexericos e as vaidadezinhas que brotam como tortulhos à sombra das árvores do campanário?!”

 

Nota da entrevistadora: As respostas de Júlio Dinis são citações do livro “A Morgadinha dos Canaviais, publicado em 1868. Mas bem que poderia ter sido escrito em 2017! A história do caciquismo português mantem-se tão actual!

 

 

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