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A 3ª face

Qua | 03.10.18

A morte pode esperar

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 - C'um raio. Já faz frio!

Porque não posso ficar mais um bocadinho na cama?

Passei a maior parte da vida a desejar a reforma para esquecer o relógio e os horários e agora isto!

Raios parta o meu feitio de não querer ficar parada!

Quem me manda a mim dizer à Belinha para passar por cá e irmos juntas para a piscina? 

 

Manuela levanta-se contrariada.

A cama é solitária, há anos que perdeu o marido e vive sozinha.

Do que mais falta sentiu foi dos pés aquecidos no Inverno. Mas o edredão que a filha lhe oferecera há dois Natais atrás faz mais ou menos o mesmo. Pelo menos, não resmunga pelo atraso do jantar, por querer ir para a tasca passar o serão com os amigos.

 

As cruzes, caramba. Ai que dor, quando se levanta!

Mas já esteve bem pior. A hidroginástica anda a fazer-lhe bem.

 

Está a terminar a torrada - que a placa gosta de mastigar devagarinho - quando a comadre Belinha se assoma ao postigo da porta.

- Ainda não tás despachada, moça? Lá vamos perder o melhor lugar no balneário, outra vez! 

 

Mas Manuela nem lhe responde. Está a tentar planear o que tem para fazer.

Hoje é dia do neto cá vir almoçar. Tem que ir comprar uns bifinhos, que é o que o menimo mais gosta.

E às duas e meia, tem aula de português na Universidade Sénior. E depois há reunião para fazer as rifas do cabaz de Natal.

É difícil lembrar-se de tudo o que tem a fazer.

Já calhou esquecer-se do ensaio da peça de teatro.

A cabeça já não dá para tanto.

Raio de feitio de não querer ficar parada!

 

A comadre Belinha corta-lhe o raciocínio:

- Olha lá, já sabes quem morreu?

 

Não, não sabe. Mas conhece a comadre desde criança e consegue adivinhar, pelo tom, que foi mais uma das suas amigas.

O cair da folha não perdoa, isso já ela comprovou.

Antigamente, custava-lhe ir aos funerais e despedir-se das pessoas queridas.

Sempre foi jovial e o grupo de amigos era grande. 

Agora nem tanto. Restam cada vez menos. 

Porém, por força do hábito ou porque já se habituou a conviver com a morte, passou a gostar de funerais. Vai a todos.

É um convívio como  qualquer outro. Com a diferença de que um dos amigos já não colabora na conversa. Apenas escuta, deitado, no centro da igreja.

É ali que sabe das novidades, revê a mocidade que já não costuma sair de casa  e mata saudades dos filhos dos amigos que ajudou a criar e só vê, agora, nestas ocasiões.

Lá terá de ir a mais um funeral. Ainda bem que tem a roupa passada.

Mas agora, o que importa é não se esquecer da toalha e dos chinelos de banho.

E comprar os bifinhos para o menino.

 

Saem de casa.

C'um raio, já faz frio.

Está um lindo dia de sol frio, pensa.

 

E lá vão as duas, cada qual a queixar-se da humidade e das suas dores nos ossos.

A morte, essa pode esperar...

 

As actividades físicas, de estimulação cognitiva e sensorial, o  convívio e o envolvimento familiar são indispensáveis para proporcionar a qualidade de vida dos idosos e retardar as doenças degenerativas.

Proporcionar as condições para o bem-estar dos idosos é acrescentar-lhes vida aos anos, com benefícios para os próprios e para a sociedade.

 

 

O texto faz parte de um conjunto de reflexões sobre o Envelhecimento.

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