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A 3ª face

Ter | 29.01.19

A rua do Cara d’Alho (conto)

 

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Desligou o telefone e foi como se a fechadura da masmorra onde aprisionara as memórias se tivesse estilhaçado.

Um turbilhão de imagens soltaram-se e invadiram-lhe os sentidos.

Turvou-se-lhe a visão, emudeceu-se o presente e José voltou a ser o menino franzino na sala daquela escola velha e a cheirar a bafio.

Sempre se sentira diferente dos colegas. Evitava as brincadeiras de rapazes e preferia ficar a um canto do recreio, a imaginar um mundo paralelo, onde fazia de conta que era.

Que era mil personagens que inventava e representava.

 

Os colegas não lhe perdoaram a diferença.

José Carvalho sofreu aquilo que hoje já tem nome: foi vítima de bullying.

Nunca lhe bateram mas os insultos magoavam mais do que um soco nas partes baixas.

Acabou por ficar conhecido como o Cara d’Alho, pelo trocadilho do sobrenome e pelo prazer que todos sentiam ao assistir à sua humilhação.

 

Um dia tomou coragem e pediu ao pai para desparecerem daquela vila ignóbil, onde até os adultos já o cumprimentavam pela alcunha, com ar de escárnio.

Teve sorte.

Há muito que o pai matutava em emigrar para os Estados Unidos, para onde tinha ido um primo que jurava estar rico.

Nessas férias de verão pisaram a terra de todas as oportunidades e nunca mais regressaram a Portugal.

 

E agora, ao fim de tantos anos, o telefonema…

José reconheceu o António Vasconcelos quando este se apresentou. Tinham sido colegas na escola e recordava-se bem dele. O queixinhas da escola, que contava todas as mesquinhices à professora, a troco de ser o favorito. Mentiroso e manipulador, que chegara a acusar um amigo de um disparate que ele próprio fez para sair impune.

Agora apresentava-se como presidente da Câmara lá da terra e convidava-o para a inauguração.

Haviam decidido atribuir o seu nome a uma rua, prestando homenagem pela sua carreira.

 

O que é facto é que José Carvalho, ou melhor, Joe Carval, como era agora conhecido mundialmente, tornou-se actor, como sonhara no recreio da escola primária.

E mais. Acabara de ganhar um Óscar e a euforia ainda o entorpecia.

 

Joe Carval acedeu ao convite.

Regressou ao lugar onde as memórias pareciam garras a sugar-lhe o orgulho que agora sentia.

Sorriu durante toda a cerimónia. E mais ainda quando os antigos colegas o bajularam, fazendo-se esquecidos do sofrimento que lhe causaram muitos anos atrás.

 Há cicatrizes que nunca fecham mas eles não sabem.  

 

Conforme combinara com o presidente, ele próprio ofereceu um repasto aos ilustres do lugarejo. No restaurante mais chique da vila.

E voltou para os Estados Unidos.

 

Já passara um mês mas Joe Carval ainda se ri de cada vez que visualiza o ar atónito dos convivas quando viram a ementa.

Uma entrada de pão acompanhado com azeitonas temperadas com alho e uma açorda d’alho.

 

Ele bem sabe. Há coisas que nunca mudam.

E é isso que está a pensar agora, enquanto contempla o chão.

Joe Carval tem um estrela no Passeio da Fama, em Hollywood.

E tem uma rua com este nome na terra natal.  A que todos chamam, com tom de gozo, 

 

a rua do Cara d’Alho

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