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A 3ª face

Qua | 24.10.18

Desafio da escrita - dia 10: peluche

   

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A ideia romântica que temos de um sótão é a de um lugar mágico, cheio de teias de aranha e tesouros escondidos em baús.

Pois eu tenho um sótão grande, com três divisões. Tem teias de aranha, às vezes. Mas, em vez de baús, tem muitas caixas de papelão e muita tralha desarrumada.

Ora, desde há duas semanas que eu e o meu marido andamos a tentar arrumá-lo. Começámos pelo meu atelier de costura, como expliquei aqui.

Ele continua a fazer prateleiras de arrumação. Tirou tudo do sítio.

O sótão é o albergue dos peluches  dos meus filhos. Neste momento, para onde me viro, vejo-os por todo o lado.

De todos os tamanhos (há um elefante do meu tamanho), cores e feitios…

 

E eu.

Eu, em criança, apenas tive dois peluches.

Uma pantera cor-de-rosa que enfeitava uma cadeira.

E um coelho-bebé azul, com pilhas, que dizia mamã.

 

O coelho azul devia ser muito valioso.

 Acho que a minha mãe tinha medo que eu o estragasse (não sei porquê, a única coisa que estraguei na minha infância foi o olho de um boneco que, acidentalmente recuou e o deixou zarolho. O que eu chorei, meu Deus) e o coelho passou a vida dentro da caixa, em cima do guarda-fato.

Ainda me lembro de estar na cama e contemplá-lo, a brincar com ele na minha imaginação.

Agora que penso nisso, acho que tenho a tendência para fazer da vida aquele coelho. Ficar parada a contemplá-la, com medo de a estragar.

 

Triste ideia.

A da minha mãe.

O coelho foi herdado por uma prima ainda dentro da embalagem. Deve ter sobrevivido uma semana.

 

E triste ideia a minha.

De que me serve a vida dentro de uma caixa?  A vida é para ser agarrada, sorvida, aproveitada.

E mesmo que a esfrangalhe de vez em quando, haverá sempre forma de a remendar. Como um peluche.

Assim como assim, ela é só minha e ninguém a conseguirá herdar.

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