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A 3ª face

Sex | 12.10.18

Desafio da escrita - dia 12: porta

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I

Já estava vestida, frente ao espelho e preparava-se para colocar a máscara. Era hora de descer do quarto de hotel, para que chegasse ao baile de Carnaval à hora marcada.

Saiu do quarto. Fechou a porta e seguiu pelo corredor com passos seguros.

Conhecera-o num site de encontros, num momento de curiosidade e de maior solidão. Algumas colegas divertiam-se a marcar encontros casuais nesse site e ela, casada, nunca tivera coragem de perguntar como é que isso funcionava.

O seu casamento mantinha-se apenas à hora de jantar, que era cada vez mais tarde porque o marido, engenheiro civil, tinha projectos importantes para concluir. E ela, professora, passava os serões a preparar aulas e corrigir testes.

Era uma vida tão diferente da época em que se conheceram. Tão jovens, loucos e felizes!  

Passavam noites a discutir filosofia, a esmiuçar as letras das canções, a descrever os países que queriam conhecer! As primeiras férias juntos, então, foram inesquecíveis.

Numa noite bem bebida, passaram por um tatuador e ela só saiu de lá com a inicial do seu amado desenhada atrás da orelha esquerda! Já aí ela tinha a certeza de que seria um amor para sempre!

 

Mas agora era tudo diferente e o novo amigo, com quem mantinha contacto virtual diário, despertava-lhe todos os desejos! Achava-o culto e atrevido, com um humor irresistível.

Num momento de loucura (mentira, tinha sido premeditado), lançou-lhe o convite cheio de meias palavras maliciosas, embora o pânico de ser descoberta quase a sufocasse.

Iriam encontrar-se no baile de máscaras de um Hotel, vestidos a rigor, que o mundo é pequeno e ela não correria o risco de ser reconhecida. Subiriam depois para o quarto já reservado, onde trocariam a força das palavras pelos corpos que se queriam conhecer!

Foi fácil enganar o marido. Era hábito juntar-se com os colegas de faculdade numa festa de Carnaval, para relembrar os bons velhos tempos e o marido o-d-i-a-v-a ir! Por isso o convidou, sabendo que ele recusaria (acertou, que por essa altura, já tinha tudo combinado com o seu amigo e com o Hotel).

Deu a sua máscara a uma amiga (que ingenuamente lhe agradeceu), de modo a que, se o marido visse fotos no Facebook, reconheceria a máscara e pensaria que era ela.

 

II

Ele saiu do carro, disfarçado de Batman e com um pequeno lenço vermelho no punho direito, o sinal para ser reconhecido. Sentia-se ridículo porque detestava o Carnaval e as últimas vezes que se mascarou, ainda na Primária, foi a toque de nalgadas, obrigado pela mãe, para participar no desfile da escola.

Por precaução, tinha escondido o fato junto do pneu sobressalente e teve alguma dificuldade em trocar de roupa dentro do carro.

Embora gostasse de seduzir as mulheres, nunca tinha chegado a este patamar. Era casado e trair a mulher, embora o desejasse, estava a causar-lhe algum desconforto. Mas paciência. Há muito que não cometia uma loucura (a última quase lhe custou a vida, quando rasgou um pulso ao saltar de para-quedas, cuja cicatriz o fazia recordar sempre que levantava o braço) e derramar charme através de computador já não lhe dava “pica”.

Dentro do fato justo, ainda se sentia elegante e as horas no ginásio tinham dado resultado. Ela iria ficar surpreendida com a sua aparência… a noite prometia!

Fechou a porta do carro e seguiu pelo empedrado com passos seguros.

 

III

Quando ela chegou ao salão de baile, procurou o seu Batman, sem conseguir disfarçar a ansiedade. Tinha ensaiado o momento e fez a sua dramatização: tocou-o nas costas, embora a sua enorme saia rodada, digna do Carnaval de Veneza, tivesse desfeito a surpresa. Apenas com um gesto, convidou-o para dançar. Ela ficou admirada com o corpo musculado que a seguia entre a multidão. Ele ainda disfarçou a perplexidade perante o decote exuberante, onde se adivinhava uma longa noite de prazer.

Dançaram um pouco em silêncio mas a atracção que os consumia falou mais alto. Ele tirou um braço da sua cintura e desviou-lhe o cabelo da máscara, para a beijar no pescoço.

 

IV

Ela reconheceu-lhe a cicatriz no pulso. Mas nada disse.

Ele leu a sua inicial no pescoço dela. Mas nada disse

De imediato, ela fez sinal que iria buscar bebida, como se fosse a coisa mais natural do mundo! Ele ainda não lhe tinha ouvido a voz e era impossível reconhecê-la com a máscara. Subiu ao quarto e só desceu na manhã seguinte.

Ele ficou petrificado no meio do baile mas aliviado por ela não o ter reconhecido. Saiu do hotel, despiu-se mesmo ali e regressou a casa.

 

 V

Ela voltou na manhã seguinte, com olheiras da farra que tivera com os colegas, como era suposto, e deitou-se.

Ele mostrou-se feliz por não ter ido aturar aquela gente e lamentou o cansaço pelo serão no escritório a terminar um projecto.

Por essa altura, já cada um colara ao rosto uma máscara que iria durar toda uma vida!

 

Texto inserido no Desafio da escrita

Palavra do dia 12: porta

 

 

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