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A 3ª face

Seg | 15.10.18

Desafio da escrita - dia 15:vida

 

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Criou dois filhos homens mas o desgosto de não ter uma menina acompanhou-a até ao dia em que lhe nasceu o primeiro neto, numa época em que as ecografias ainda não haviam sido inventadas.

Era uma neta.

A bebé rechonchuda e tranquila arrebatou-a de imediato.

Todos os dias, a caminho do Mercado, onde ia comprar os alimentos para o almoço do marido, fazia paragem na casa do filho.

Para ver a menina.

Mesmo que estivesse a dormir, ficava a contemplá-la, perdida nas horas e nos sonhos.

Acredito que o seu pensamento ficasse suspenso nos futuros passeios e brincadeiras.

Iria ensiná-la a fazer renda e a costurar, como sabia fazer tão bem.

Por certo.

Muitas vezes, esquecia-se do almoço, o que lhe custou alguns raspanetes severos do marido.

 

Certo dia, enquanto assistia a uma demolição perto de casa, um pedregulho escapuliu-se da escavadora e atingiu-a.

Agonizou quase uma semana na cama do hospital, que não houve possibilidade de a salvar.

Apenas chamava pela neta, com os sonhos de uma vida desfeitos pela morte.

Morreu no dia de Natal.

Foi enterrada dois dias depois, na data em que a sua menina completou os primeiros seis meses de vida.

 

Se a continuou a acompanhar nas brincadeiras e nos passeios? Talvez.

Mas, de algum modo, cumpriu o sonho de a ensinar a fazer renda e a costurar, como sabia fazer tão bem.

Por certo.

 

A neta?

Sou eu. 

 

Texto inserido no Desafio da escrita

Palavra do dia 15: vida

 

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