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A 3ª face

Qui | 18.10.18

Desafio da escrita - dia 18: laranja

 

ceifera-do-alentejo.jpg

(Crédito da foto)

 

Lídia nunca tinha saído da herdade onde já tinham nascido os pais e avós dos seus avós. E mais não sabia, que já ninguém se lembrava.

Era o seu mundo, onde brincava despreocupada com as outras crianças.

Todavia, assim que fez 12 anos, começou a acompanhar a mãe e as irmãs nos trabalhos agrícolas. Ganhava menos mas fazia diferença na jorna da família.

A casa onde vivia, era a segunda da rua do monte alentejano, com vista para a casa dos patrões.

 

A patroa raramente saía da zona privada da casa. Parecia-lhe sempre triste e encolhida.

Já o patrão, tinha a força do fogo. Tal como a cor do cabelo.

Os mais antigos garantiam que era descendente dos Vikings, o que justificava o ímpeto e a brutalidade com que tratava toda a gente.

Mas o que mais a impressionava era a postura das raparigas da herdade quando ele se aproximava. Baixavam a cara, encolhiam-se até quase se tornarem invisíveis. Algumas tremiam de terror.

 Lídia nunca tinha percebido porquê.

Quando perguntava, a resposta eram silêncios. Daqueles que gelam.

 

Ora com 12 anos, o corpo de Lídia começou a dar provas da linda mulher em que se iria tornar.

O peito altivo, a cintura delineada, o pescoço alto, as ancas bem torneadas. E, na sua vaidade infantil, quis começar a vestir roupa que lhe favorecesse a formosura.

O pai, da primeira vez que a viu de vestido decotado e mais curto, teve um ataque de raiva e rasgou-lho no corpo, entre gritos e ameaças.

Foi então que a mãe, em palavras que ela não conseguiu decifrar, lhe explicou que deveria esconder o corpo…que o patrão cedia à tentação…que o pai apenas a queria proteger…que não queria a filha desgraçada como as outras…que os homens têm vontades que não conseguem dominar…

Lídia apenas retirou do discurso atabalhoado da mãe que tinha de obedecer às ordens dos pais.

E na sua inocência, mais não percebeu.

 

Embora a roupa, o chapéu de feltro e o lenço atado escondessem a beleza já despontada, a sua graça e jovialidade saiam-lhe pelos enormes olhos verdes, que ninguém conseguia esconder.

E um dia, quando se afastou do rancho da ceifa do trigo, à hora do almoço, para ir colher uma laranja, ouviu o relinchar do cavalo, o salto das botas caneleiras e num ápice, caiu ao chão, onde o patrão lhe ensinou aquilo que não tinha conseguido aprender com as palavras da mãe.

Só muito depois do patrão ter apertado o cinto da fivela de prata e desaparecido em cima do cavalo, prostrada e dorida, compreendeu o silêncio das raparigas, os filhos sardentos do monte, a quem não lhes conhecia pai e o que significava ficar desgraçada.

 

Em homenagem a todas as mulheres alentejanas violadas pelos patrões, durante muitas gerações.

 

 

Texto inserido no Desafio da escrita

Palavra do dia 18: laranja

 

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