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A 3ª face

Qua | 31.10.18

Desafio da escrita - palavra: amor

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Tinha frio.

Já não sabia há quanto tempo estava deitado naquela cama estreita. Muito diferente do leito onde passara os últimos anos. Com ela. Sempre. Todas as noites.

Tentava reconstituir o dia mas a exaustão fazia-o duvidar se as memórias eram reais ou parte de um pesadelo.

Pensava na mulher.

Amava-a tanto e há tantos anos!

Com todas as suas forças.

Começaram a namorar ainda na escola e ele sempre lhe demonstrou o quanto a adorava. Era a sua namorada! Os ciúmes que lhe mostrava não eram prova disso?

Por vezes, exagerou mas sempre reconheceu logo a seguir.

Ela compreendia o seu feitio intempestivo. Afinal, já vinha desde criança, quando lhe entrava o diabo no corpo, como a mãe costumava justificar as suas birras às vizinhas da rua.

Quando casaram, a sua princesa tornou-se tudo para si. E por isso, não suportava que a esposa cumprimentasse outros homens. Nem que fossem primos, sequer.

Nessas ocasiões, descontrolava-se, cegava e magoava-a. Às vezes, ela amanhecia com um braço roxo ou um olho mais inchado.

E ele desfazia-se em desculpas, prometia que não voltaria a descontrolar-se, comprava-lhe flores, leva-a a jantar.

E acreditava que a fazia feliz. Esses momentos menos bons eram naturais num casamento. Sobretudo quando um marido ama tanto a sua mulher!

 

Na véspera, faltara novamente à promessa. Depois de um petisco com os amigos, apanhou a mulher à conversa com um homem à porta de casa. E cegou, mais uma vez.

Por muito que ela lhe gritasse que era o irmão, ele nem a ouviu. Não sabe o que fez mas assume que exagerou.

Quando se foi deitar, a mulher continuava estendida na carpete da sala.

E não fosse o raio da vizinha, na manhã seguinte, ter estranhado que o pão continuava à porta, quase à hora do almoço e os dois carros estacionados no quintal – sinal de que nenhum tinha ido trabalhar -  e ele teria tido tempo para acordar, tratar da mulher e pedir-lhe perdão.

Mas não.

A cusca da vizinha fez questão de ir tocar à campainha e chamar por eles, para saber se estavam bem.

Ele acordou com o barulho, assomou-se à janela, viu-a e recuou.

Fingiu que ninguém estava em casa.

 

E a vizinha, que conforme ficou registado no depoimento, já desconfiava dos maus-tratos, ligou para o 112.

Quando a polícia chegou, ele ainda não tinha ido à sala e não se apercebera que a mulher continuava imóvel. Com a carpete tingida de sangue.

 

E amava-a tanto! Porque é que o juiz escarneceu quando ele o afirmou?

Mesmo agora, na cela, enquanto revia a sua vida, continuava a sentir que a amava. Tanto!

E ela a ele.

E não duvidou, nem por um minuto, que quando saísse da prisão e ela se levantasse da cama do hospital, voltariam a ser felizes. Afinal, era um amor para a vida...

 

 

A Violência Doméstica é um crime público, o que significa que o procedimento criminal não está dependente de queixa por parte da vítima, bastando uma denúncia ou o conhecimento do crime, para que o Ministério Público promova o processo.

E violência doméstica não se esgota em agressões físicas. O artº 152º do Código Penal define este crime como

1 - Quem, de modo reiterado ou não, infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais: 
a) Ao cônjuge ou ex-cônjuge; 
b) A pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação de namoro ou uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação; 
c) A progenitor de descendente comum em 1.º grau; ou 
d) A pessoa particularmente indefesa, nomeadamente em razão da idade, deficiência, doença, gravidez ou dependência económica, que com ele coabite; 

 

 Se é vítima ou tem conhecimento deste crime informe-se, procure apoio ou denuncie numa entidade local ou através destes canais:

- Linha de Emergência Geral - 112

- Linha de Emergência Social - 144
- Serviço de Informação a Vítimas de Violência Doméstica - 800 202 148

- Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) - 707 200 077

- GNR ou PSP da Área de Residência

 

Que nenhum amor justifique o desamor!

 

Texto inserido no Desafio da escrita

Palavra do dia 31: amor

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