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A 3ª face

Sex | 26.10.18

Desafio da escrita - palavra: diário

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O seu sonho sempre fora ser escritora.

Desde pequena, nunca considerara outra profissão.

Mas depois do curso acabado e de dois livros publicados às suas expensas (ou melhor, da família) e sem grandes êxitos, rendeu-se à crua realidade de que teria que encontrar outra opção de vida.

E tornou-se professora de Português e Literatura.

Era boa profissional. A paixão com que ensinava sobre os livros dos outros era quase igual à dos seus sonhos.

 

Agora estava ali. Ela, Inês Real.

No palco de um anfiteatro, a receber o prémio de melhor livro do ano.

Nem sabia como. Foi tudo tão rápido.

E podia agradecê-lo à avó, Maria Inês.

A sua heroína de sempre. A mulher de força invencível, que vivia cada dia como se não acreditasse no amanhã.

Porém, quando um cancro fulminante lhe ditou que o amanhã poderia mesmo não chegar, foi Inês - a neta - que fez questão de cuidar dela no final da aventura.

Nesses dias, entre lágrimas e morfina,  conheceu a  avó verdadeira. E o seu passado.

 

Conheceu a Maria Inês do espírito aventureiro, que a levava a desafiar o mundo.

E esta confidenciou-lhe que o amor da sua vida não tinha sido o marido. Tinha-se apaixonado muito antes por outro homem, de nome Miguel, motorista de um Ministro.

Sendo de uma das famílias da elite lisboeta, o amor de Maria Inês e de Miguel foi um escândalo na família. Proibido.

Encontravam-se às escondidas na casa do Ministro, que rapidamente descobriu o caso amoroso.

E que mais rapidamente ainda também se apaixonou por ela.

Com medo da pressão da família, Miguel convenceu-a a fugir par o Brasil e aos poucos, Maria Inês foi desviando de casa o que queria levar na viagem sem volta.

 Nunca conseguiria carregar tudo no momento da partida e foi levando alguma roupa, depois jóias, a moldura com o retrato da família, o diário em que escrevia sobre a sua paixão.

Tinha medo. Da decisão e do futuro. Fora criada como uma princesa e, no fundo, tinha dúvidas se o amor a faria esquecer o luxo a que estava habituada.

Mas amava Miguel tanto quanto aquele pequeno ser que lhe começava a arredondar a cintura. E de quem ele nem desconfiava.

 

Por coincidência ou espionagem, na noite em que Maria Inês deveria sair de casa para se encontrar com Miguel no cais, de onde partiria o navio para o Brasil, o Ministro entrou-lhe casa a dentro a pedir a sua mão em casamento.

E Maria Inês ficou.

Para sempre.

E do seu grande amor restou a mãe de Inês Real, sem desconfiar que nunca foi filha de um Ministro.

E como testemunha um diário desaparecido, único tesouro que a avó lamentou no último suspiro. Disse que escrevia quase tão bem como a neta…

 

Foi esta história, com todos os pormenores da vida ou da imaginação da avó - saber lá - que se transformou no romance do ano “A mulher que não chegou ao cais”.

E foi entre autógrafos e fotografias, depois da cerimónia, que um velhinho simpático e com sotaque brasileiro a beijou, elogiou e lhe ofereceu um presente pelo carinho com que narrou a avó, uma idosa como ele.

Quando Inês Margarida retirou a fita e o bonito papel e recuperou, já o velhinho desaparecera.

Na mão tinha o diário da avó.

 

Texto inserido no Desafio da escrita

Palavra do dia 26: diário

 

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