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A 3ª face

Sex | 06.12.19

Desafio dos Pássaros #13

 

Tema da semana: Reescreve o final dum filme

 

 

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O jardineiro voltou no dia seguinte para aparar a alfazema.

Quando o vi chegar, o meu coração disparou e pensei, muito seriamente, que iria ter uma síncope.

Ele nem olhou para a porta da loja.

Fez o seu trabalho com um sorriso nos lábios e os fones nos ouvidos.  

 

Mas depois, com um ramo de alfazema na mão, dirigiu-se apressadamente na minha direcção e veio perguntar se gostava do cheirinho.

Claro que gosto. Mais do que nunca!

 

Pelo meio da conversa, disse-me que também adora cinema.

Como os grandes ecrãs ficam longe, havia comprado uma smart TV daquelas modernas, com 3 D.

Convidou-me para uma sessão ao fim da tarde (terá sido coincidência ser na altura em que o avô vem para o largo tagarelar com os amigos?) e eu nem consegui fazer-me de difícil!

 

Por volta das seis da tarde lá fui, com o coração outra vez a marcar ritmo.

Cheguei ao portão de madeira e bati na maçaneta de ferro forjado.

De imediato,  o pastor alemão e o rafeiro alentejano aproximaram-se a ladrar.

Mas o Zequinha - como é chamado carinhosamente por toda a aldeia -  apareceu e com um assobio, devolveu-os ao lugar da sesta, debaixo da laranjeira.

 

- A convidada escolhe o filme! -ordenou.

 

Em 3D, que outra coisa escolher senão o Jurassic Park?

Ele concordou.

Colocámos os óculos e durante mais de uma hora, divertiu-se com os meus gritinhos e saltos desesperados.

É que eu sentia-me mesmo dentro do filme!   

 

Quase a terminar, ele levanta-se e diz que vai preparando um lanchinho.

E eu continuo a tentar fugir da ilha, corro à frente do tiranossauro, sinto-me ofegante e desvio-me para o lado esquerdo…

De repente, sinto uns dentes afiados encostados à minha bochecha e um fio de baba escorre-me até ao pescoço.

Ele apanhou-me!

VAI-ME TRINCAR E DEVORAR!

AAaaaaiiiiiiii!

 

Em segundos, toda a aldeia se aglomerou junto ao portão, para acudir à desgraça.

 

Durante dias, em cada esquina, cismou-se acerca da pouca vergonha ocorrida entre a afilhada do Chico da Taberna e o neto do Ti Horaiço.

Que lhe teria ele feito para tamanho grito?

Porque saiu a correr com uma venda de plástico enfiada nas fuças?

 

Não voltarei lá.

Não só pela vergonha.

Mas, sobretudo, pelo diabo do rafeiro alentejano que entrou sorrateiramente pela porta da cozinha e me veio lamber com a enorme língua, logo no momento de maior suspense do filme.

 

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