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A 3ª face

Sex | 03.01.20

Desafio dos pássaros #16

 

Tema da semana- Sobre a vida adulta: Ainda não entendi o que é para fazer  

 

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E aqui estou na consulta de avaliação final com o psiquiatra.

Acham que já reúno condições para a alta hospitalar.

(Eu não quero! Aqui sinto-me protegida. Convivo melhor com a loucura dos outros do que com a minha, lá fora.)

 

O Dr. Sousa pergunta-me como me vejo.

(Eu sinto-me um pássaro dentro de uma gaiola de porta aberta e que se recusa a enfrentar a liberdade.)

Mas respondo-lhe que me revejo novamente na alma de uma jovem adulta.

 

- E para onde vais, quando saíres daqui?

(Ao Alentejo não regressarei. É demasiada vergonha para mim e para os meus padrinhos, depois do que lá fiz. Apesar de ser aquele o pedaço de terra que me torna feliz.)

- Vou para casa dos avós, aqui em Lisboa.

 

- E o que queres fazer nesta vida adulta?

(A minha avó contava-me que, em criança, a mãe a obrigava a trabalhar continuamente, para que aprendesse a ser uma adulta responsável.

Não tinha ordem de brincar nem de descansar.

No pino do Verão, com a calmaria abrasadora que a telha vã não tapava, a minha avó dormia a sesta debaixo da cama, escondida, para que a mãe não desconfiasse que estava a descansar e julgasse que andava no monte a guardar os perus.)

- Vou voltar a estudar e arranjar um emprego para pagar os estudos. Talvez num supermercado, pois tenho experiência da loja dos meus padrinhos. Não quero dar mais esse peso aos meus avós.

Mas sei que tenho o processo em tribunal, por causa da agressão. O advogado diz-me que o mais provável é passar uns meses a fazer trabalho comunitário. E irei cumprir o acompanhamento médico, aqui na psiquiatria, para não voltar aos surtos psicóticos.

 

- Sabes, minha pequena, acho que está na hora de voltares à tua vida. Amanhã já terás o papel da alta. Avisa os avós para te virem buscar, que ainda quero falar com eles.

 

E agora?

O discurso assertivo não condiz com o que sinto cá dentro.

Ainda não percebi o que é isto de ser adulto.

Amanhã começo a procurar uma cama alta, onde me possa esconder, como a minha avó fazia quando dormia a sesta…

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