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A 3ª face

Sex | 01.11.19

Desafio dos Pássaros #8

 

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste

 

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A casa dos padrinhos já foi a minha.

Pertence à família há gerações e cresci lá até que, sob chantagens e ameaças, convenci os meus avós a mudarmo-nos para Lisboa.

 

Hoje, a madrinha pediu-me para ir ao sótão procurar frascos de vidro para a compota de abóbora, que os CTT não entregaram a encomenda a tempo.

Num canto, coberta de pó, encontrei a arca que costumava estar no meu quarto e onde guardava os brinquedos e as relíquias.

Abri-a e um turbilhão de memórias rodopiou e ganhou vida.

Por lá, encontrei o meu antigo diário e abri-o ao calhas:

Querido diário

Estou muito triste e ninguém me compreende.

Viver aqui, no meio do nada, sempre a ver as mesmas pessoas, está a matar-me.

Hoje, o avô ralhou-me, quando me descobriu no seu quarto a usar as joias da avó. Disse-me que valiam muito dinheiro e poderias parti-las ou perdê-las.

Eu só queria fingir que vivia numa casa grande, numa família rica, como aquelas das novelas que vejo à noite.

Decidi desaparecer para assustá-lo e escondi-me na casa do fumeiro, entre as enormes talhas de azeite.

Entre soluços, acabei por adormecer e abri os olhos já era quase noite.

Por esta altura, o meu avô já deveria estar desesperado. Benfeita!

Iria ficar ali toda a noite (…)

 

Como me recordo desse dia!

Retirei a caneta que pertencia ao diário e resolvi escrever uma carta à criança que fui, como resposta a este episódio.

 

“Cara miúda,

Se te disser o quão errada estavas, não acredites.

Foi preciso sair do Alentejo e viver o sonho, para aprender que nem todas as nuvens são de algodão. Por vezes, desfazem-se em água e desaparecem…

Viver em Lisboa não é assim tão bom.

O horizonte do mundo não se perde de vista como numa seara de trigo e torna-se muito mais pequenino. E nunca tens tempo para ver o por do sol alaranjado, espelhado na água do rio.

No dia em que te escondeste, aprendi uma grande lição.

Ficaste lá só mais alguns minutos. Depois, o cheiro a pão quente acabado de sair do forno de lenha, hipnotizou-te e correste para a avó, a pedir uma tiborna.

Na azáfama do dia, ninguém notou a tua falta.

 

E descobri que, na vida, mesmo nos momentos maus, há sempre o cheiro de um pão quente a sair do forno, que chama por nós.

Só temos que saber inspirar.  

 

(continua...)

 

Tiborna: fatia de pão quente regada com azeite e polvilhada com açúcar e canela

Foto: Euzinha, p'raí com 3 anos

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