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A 3ª face

Sex | 27.03.20

Desafio dos pássaros #2.8

 

Tema da semana: Foi tão bom, não foi

 

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Pontinha é enfermeiro, como já sabem.

Pontinha está apaixonado por uma paciente que, entretanto, já teve alta. Durante aqueles dias, foi tão bom, não foi?

 

Subitamente, no meio deste rodopio de emoções, o Mundo mudou. Mas isso, já todos percebemos.

O Serviço onde o Sr. Enfermeiro Pontes Manuel trabalha, foi reconvertido. Era a Unidade de Psiquiatria mas como alguns loucos estão fechados em casa e os casos mais graves passeiam-se tranquilamente pelas ruas, a ala hospitalar foi reconvertida para receber doentes de Covid-19.

Quando Pontinha decidiu ser enfermeiro, o seu chamamento era salvar vidas. Mas nunca pensou que fosse lidar com o salvamento massivo de um povo inteiro, lutando contra um inimigo que traz coroa mas não se quer mostrar.

Amanhã começará a sua batalha. Irá iniciar o turno e para proteger os pais, não voltará a casa. Tal como os outros colegas que têm família, ficarão confinados ao hospital, saber lá até quando.

 

A mãe perguntou-lhe se tinha medo.

Pensou dizer que não. Mas porque mentiria à mãe?

Disse que sim. Todavia, como profissional de saúde, era seu dever.

 

Decidiu ir ao supermercado para que os pais ficassem abastecidos e para levar alguma reserva de snacks para o Hospital. Doravante, o chocolate de avelãs inteiras seria o seu único luxo.

Entrou no carro e percorreu a rua do bairro. Acenou a alguns vizinhos que se assomavam às janelas, mostrando-lhes um sorriso caloroso.

Nada. Nenhum devolveu o cumprimento, fingindo não ver.

No supermercado, onde costumava dar dois dedos de conversa com os amigos ou atender aos pedidos de conselhos de alguns vizinhos, Pontinha compreendeu como o vírus infecta alguns mas afecta todos.

As pessoas ignoram-se. Vagueiam cabisbaixas e não cruzam olhares nem acenam aos amigos ou familiares que percorrem os corredores quase vazios.

Pontinha disse “bom dia” dez vezes.

Dez vezes sorriu.

E dez vezes o ignoraram.

Por duas ou três vezes, teve a certeza de que algumas pessoas o evitaram por ser enfermeiro e um potencial contagiador.

Talvez as mesmas pessoas que, dias antes, bateram palmas às janelas, para agradecerem aos profissionais de saúde.

 

Amanhã, Pontinha entrará no retiro profissional, sem saber quando tudo terminará.

Mas hoje, Pontinha deixa um apelo:

Num período de afastamento físico e social, um sorriso transforma-se no único abraço possível, capaz de confortar a dor dos outros e mostrar que, acima do medo, continuamos humanos. E pode ser a única luz que permite acreditar que ainda há caminho.

Por favor, não percam a capacidade de sorrir! 

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