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A 3ª face

Sex | 08.09.17

Eu, uma espécie de Forrest Gump do Portugal Moderno

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Não é a primeira vez que os meus filhos chegam a esta conclusão. A propósito de uma conversa sobre música, eles (com 20 e 14 anos de idade), voltaram a dizer que a geração dos pais foi a mais privilegiada da História - incluindo a deles.

E os putos têm toda a razão. Nasci em 70, quase no final da ditadura e da guerra colonial e apenas guardo memórias das histórias que alguns vizinhos e familiares contavam de uma África longínqua.

A liberdade sempre me foi banal mas a minha educação decorreu entre o brincar na rua e os valores do respeito pelos outros e da boa educação. O Velho Papão e a Côca eram lendas e os meus pais nunca se preocuparam com a eventualidade de ser raptada ou violentada mal pusesse o nariz fora da porta.

Chegávamos a pé à escola num grande bando que engrossava em cada rua porque esperávamos que os que viviam mais longe batessem à nossa porta para sairmos. Fomos nós que começámos a usar calças elásticas, pelo que as skinny nem sequer são moda recente!

A música portuguesa e estrangeira vivia o seu esplendor e não perdíamos o Top+ da RTP ao fim-de-semana para cantar “I just called to say I love you”, “Like a virgin”, ”O teu perfume patchouly”,” Hello” e “Last Christmas”. Vejam os cartazes dos últimos festivais de Verão e confirmem se os grupos que já têm que ir mudar a fralda a meio (como costumo dizer) não são os mais requisitados!

Filha de um mecânico e de uma cozinheira, a morar na província, consegui chegar à Faculdade (coisa outrora impensável para a plebe), ajudada pelo dinheiro amealhado no meu emprego de Verão (que todos os jovens conseguiam numa fábrica local) e por uma bolsa de estudo municipal (outra novidade da minha geração).

Terminado o curso na área das ciências sociais, consegui facilmente emprego (pasme-se, em ciências sociais!!!) na minha terra, cumprindo o meu projecto de vida.

Com a vida profissional estável, eu e o meu namorado comprámos casa mesmo antes de casar, graças às facilidades do crédito à habitação, que se democratizou no início da década de 90.

Amadureci neste clima de optimismo e vivi sem grandes preocupações financeiras naqueles anos “em que éramos ricos”, como diz a minha filha para fazer inveja ao irmão mais novo.

E nesta conversa, não pude deixar de me sentir uma espécie de Forrest Gump do Portugal Moderno.

O novo milénio trouxe um retrocesso em muitas áreas e a instabilidade económica e social, os atentados terroristas, a insegurança, a sombra do desemprego e a ameaça de uma guerra de repercussões globais estão a traçar um cenário demasiado escuro. Ouvir esta geração assumir que o passado foi melhor do que o futuro que os aguarda é triste, DEMASIADO TRISTE...

 

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