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A 3ª face

Qua | 03.03.21

Sara arco-íris, a coleccionadora de cores

Desafio dos lápis de cor #7, azul claro

 

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- P´la Santa, como odeio fazer revistas!

O trabalho que Sara mais detestava era  fotografia para revistas de moda. Dias intermináveis a vestir e despir entrouxos - como a avó designava a roupa extravagante - e a calçar sapatos que desafiariam os melhores equilibristas.

O ambiente, ainda por cima, estava pesado.

O fotógrafo era o Azulinho, profissional experiente, já a roçar os sessenta anos e com a carreira a afundar-se, depois do episódio em que as duas colegas, com quem estava ali a trabalhar, tinham sido protagonistas.

 

Uma sessão fotográfica é como um dia primavera: se o Sol está encoberto e não o consegues fitar, nada  brilha. E uma modelo tem de encarar a câmara como se fosse o Sol, para que o resultado seja brilhante.

Ora, depois do que aconteceu há cerca de seis meses, nenhuma delas conseguia fixar a objectiva do Azulinho.

E o homem ainda estava pior! Mais parecia o Sol dançante da Cova da Iria, sem conseguir disfarçar a tensão e cólera.

 

Mas Sara tinha ficado à margem do escândalo e se este era o mês do cromo azul céu, teria de aproveitar!

No primeiro dia, tentou conversa, sorrisos, sinais… mas nada!

Nas pausas, o gajo nem olhava e aproveitava para se afastar do grupo.

 

No segundo dia, esforçou-se ver-da-dei-ra-men-te!

De tal modo, que a produtora da campanha a chamou à atenção várias vezes para que não sorrisse.

Afinal, toda a gente sabe que uma modelo que se preze não mostra a cremalheira nem as rugas de expressão! Serve para manter aquele ar intimidante que parece dizer ao público: tu aí, se não usas esta roupa, és um vermezinho encolhido, olha para mim com este ar superior e um peso na cervical que me eleva a ponta do nariz!

 

Mas a sedução de Sara lá atravessou a objectiva e conseguiu atingir o fotógrafo.

Ao terceiro dia de trabalho, depois de todos terem saído, ela esperou, escondida, que o Azulinho arrumasse a parafernália de tripés, lentes, luzes… e aproximou-se por trás.

Foi um serão demorado, lento, saboreado. A idade tira energia mas dá sabedoria, sem dúvida.

Aquelas duas colegas envolvidas no escândalo, depois de terem divulgado que o fotógrafo, para aguentar a menage a trois, tomara dois comprimidinhos azuis numa só noite, passaram a apelidá-lo de Azulinho.

O escárnio e as conversas inventadas que se seguiram provocaram danos: os risinhos e as anedotas que grassaram no meio da moda tornaram o fotógrafo inseguro e deprimido.

 

Não foi por pena que Sara o escolheu, isso não! Apenas porque não tinha de se esforçar para procurar outro homem.

Mas a vida está cheia de coincidências, tal como o céu está cheio de nuvens que vêm e vão.

 

No quarto dia, Sara esforçou-se por ignorar o serão. E o fotógrafo também.

Porém, o que passa despercebido aos olhos humanos não escapa à objectiva de uma boa câmara fotográfica (ou será mais do que isso?)

E vá-se lá saber porquê, uma fotografia de Sara, tirada pelo Azulinho nesse dia, viria mais tarde a ser laureada como a Foto de Moda do Ano, num concurso da especialidade!

 

Neste desafio participo eu, a Concha, a  Fátima, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

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