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A 3ª face

Ter | 23.07.19

Morte, espera aí que eu já vou (escrita criativa)

A 3ª face
  Os últimos meses não foram fáceis. Estes dias, em que já nem comia e apenas se aguentava com as doses de morfina, haviam-se tornado um suplício. Bia sentia-se permanentemente atordoada e por vezes, tinha dificuldade em falar e perceber o que lhe diziam. Sabia que tinha delírios e chamava pelo neto. Se não ouvisse os comentários das enfermeiras, julgaria que eram apenas sonhos. Mas não! Há muito que ELA estava no quarto. Queria levá-la, sabe-se lá para onde mas Bia não (...)
Ter | 29.01.19

A rua do Cara d’Alho (conto)

A 3ª face
    Desligou o telefone e foi como se a fechadura da masmorra onde aprisionara as memórias se tivesse estilhaçado. Um turbilhão de imagens soltaram-se e invadiram-lhe os sentidos. Turvou-se-lhe a visão, emudeceu-se o presente e José voltou a ser o menino franzino na sala daquela escola velha e a cheirar a bafio. Sempre se sentira diferente dos colegas. Evitava as brincadeiras de rapazes e preferia ficar a um canto do recreio, a imaginar um mundo paralelo, onde fazia de conta que era.
Seg | 31.12.18

Adeus!

A 3ª face
  Despiste-te. Deixaste a roupa usada no chão e só não abandonaste a própria pele porque não a conseguirias arrancar. Há marcas que ficam. Mesmo que as queiramos apagar. Assim como a pele. Partes assim tão de repente. Porquê? Logo agora, que tenho o espumante a arrefecer e as passas na tacinha de cristal. Mas despedes-te apressado e eu não te peço para ficar.   Não foi a primeira vez. Outros vieram antes de ti. E partiram. A alguns, desejei que desaparecessem velozmente. Outr (...)
Ter | 20.11.18

Madalouca (escrita criativa)

A 3ª face
  Madalouca. Chama-se Madalena mas todos lhe chamam Madalouca. Até nem responde quando a tratam pelo verdadeiro nome. Aqui, onde já vive há 3 meses - ou três anos, saber lá - também acode pela alcunha. Com a diferença que a chamam com carinho e não com aquele tom de soberba, de quem se julga normal neste mundo.   Madalouca sempre foi irritadiça. A mãe dizia que tinha apanhado a Lua. Por qualquer contrariedade, tinha fúrias e ataques e quase se ia no choro. Só se controlava e (...)
Qua | 31.10.18

Desafio da escrita - palavra: amor

A 3ª face
  Tinha frio. Já não sabia há quanto tempo estava deitado naquela cama estreita. Muito diferente do leito onde passara os últimos anos. Com ela. Sempre. Todas as noites. Tentava reconstituir o dia mas a exaustão fazia-o duvidar se as memórias eram reais ou parte de um pesadelo. Pensava na mulher. Amava-a tanto e há tantos anos! Com todas as suas forças. Começaram a namorar ainda na escola e ele sempre lhe demonstrou o quanto a adorava. Era a sua namorada! Os ciúmes que lhe (...)
Ter | 30.10.18

Desafio da escrita - palavra: prémio

A 3ª face
    Há muito, muito tempo, não muito longe daqui, uma águia forasteira reuniu os pássaros de uma floresta e anunciou-lhes as boas novas. Uma jovem princesa pretendia, como prenda de aniversário, o mais belo passarinho do reino e a águia fora enviada para o encontrar. A vida do eleito mudaria para sempre. Passaria a viver no conforto do castelo, onde os repastos seriam as mais belas e douradas sementes daquelas terras. Mas para além da beleza, o vencedor teria de demonstrar (...)
Seg | 29.10.18

Desafio da escrita - dia 29: café

A 3ª face
Foi no bar da Faculdade que o conheci. No grupo de colegas, enquanto revíamos a matéria para a frequência.  O que é facto é que ele me arrebatou naquela manhã. Inesperadamente. Ainda pensei que fosse um embate passageiro, sem consequências. Mas estes encontros repetiram-se. No mesmo local, com as mesmas pessoas presentes. Um dia, cedi aos sentidos. Sabia que ele lá estava e fui sozinha ao bar. Não era esperada e ele até poderia estar nos braços de outra. Afinal, era o mais (...)
Sex | 26.10.18

Desafio da escrita - palavra: diário

A 3ª face
O seu sonho sempre fora ser escritora. Desde pequena, nunca considerara outra profissão. Mas depois do curso acabado e de dois livros publicados às suas expensas (ou melhor, da família) e sem grandes êxitos, rendeu-se à crua realidade de que teria que encontrar outra opção de vida. E tornou-se professora de Português e Literatura. Era boa profissional. A paixão com que ensinava sobre os livros dos outros era quase igual à dos seus sonhos.   Agora estava ali. Ela, Inês Real.